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Ninguém se livrará dos livros

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Literatura: Para Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, é falsa a hipótese de que a obra literária em papel esteja com os dias contados.

Por José Castello, para o Valor, de Curitiba.

O escritor italiano Umberto Eco é um entusiasmado estudioso do erro. "Sou fascinado pelo erro, pela má-fé e pela estupidez", diz. Já escreveu um livro, "A Guerra do Falso", inédito no Brasil, dedicado aos museus americanos de reproduções de obras de arte. Criou, com "Os Limites da Interpretação", uma teoria da falsificação. Baudolino, um de seus personagens mais célebres, é um sofisticado falsário. O erro sempre aponta para algo que não devemos esquecer.

Entre as obsessões de Eco está o combate a uma das mais celebradas falsificações de nossos dias: aquela que, cheia de argumentos e certezas, anuncia a morte do livro. A disseminação do computador, desdobrada agora nos livros eletrônicos, é o argumento principal dos que desempenham o papel de coveiros. Umberto Eco crê, ao contrário, que a informática e o avanço tecnológico nos trouxeram de volta à era alfabética. "Se um dia acreditamos ter entrado na civilização das imagens, eis que o computador nos reintroduz na Galáxia de Gutemberg", argumenta. Já que, com o advento do computador e da web, "todo mundo vê-se obrigado a ler".

Eco defende sua tese com ênfase em "Não Contem com o Fim dos Livros", longo diálogo com o escritor e ensaísta francês Jean-Claude Carrière (organização e mediação de Jean-Philippe de Tonnac, tradução de André Telles, Record, 272 págs., R$ 39,00). Os que apostam na morte dos livros - seja como um sinal da era das imagens, seja como uma oportunidade de novos negócios - devem colocar suas barbas de molho, os dois alertam. Por um motivo simples: o livro não vai morrer.

Eco observa que o livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Instrumentos que, uma vez inventados, não podemos aprimorar. "Você não pode fazer uma colher melhor que uma colher", diz. Do mesmo modo, e para o mesmo uso, não podemos fazer algo melhor que o próprio livro. Ao longo dos séculos, muitos se esforçaram para matar o livro. Censura, ignorância, imbecilidade, inquisição, negligência, incêndio são, apenas, alguns de seus inimigos, lembra o prefaciador Jean-Philippe de Tonnac. Muita coisa, por certo, se perdeu, o que leva Tonnac a construir uma sedutora tese sobre a cultura. "A cultura é muito precisamente o que resta quando tudo foi esquecido." O livro é o guardião desse grande resto que nos constitui.

Eco sempre diz que o homem é metade gênio, metade imbecil. Os livros não poderiam escapar desse destino e por isso sua história também é, muitas vezes, lamentável e cheia de impurezas. Nada de glorificar o livro, nada de elevá-lo acima das contingências humanas. Como qualquer artefato humano, ele tem uma história oscilante e pode, com a mesma facilidade com que nos eleva, também nos enganar e afundar.

Feita essa ressalva, e ainda assim, o livro não morrerá, Eco e Carrière garantem. Não podemos usar um computador sem saber ler e escrever, eles lembram. Para Eco, a escrita é "um prolongamento da mão e, nesse sentido, é quase biológica". Ele medita: "Quando você inventa uma coisa dessas, não pode mais dar para trás".

A escrita sempre terá seus lapsos, nenhuma tecnologia a livrará deles. Essa condição invade até mesmo o universo dos livros sagrados. Muitos especialistas acreditam que existiu um "Evangelho" original, conhecido com "Q." - evangelho-fonte, batizado a partir da palavra alemã "Quelle". As primeiras palavras de Buda só foram transcritas em "O Sermão de Benares", trabalho de um discípulo, Ananda. A cultura é cheia de lapsos, ausência e furos. Muita coisa boa - mas também muita coisa ruim - se perdeu e se perderá. Nem o computador, que parece tão preciso e poderoso, nos serve de garantia.

É verdade, eles admitem, a velocidade tecnológica transforma nossos hábitos mentais. "Foi preciso quase um século para as galinhas aprenderem a não atravessar a rua", Eco recorda. "A espécie terminou por se adaptar às novas condições de circulação." Mas nós, humanos, não dispomos desse tempo. Nos filmes de ação americanos de hoje, nenhum plano deve durar mais de três segundos, ele lembra. O mundo contemporâneo não admite a lentidão.

Sim, agora temos o e-book - mais ágil, mais rápido, mais limpo. A partir dessa notável invenção, passamos, porém, a vaticinar a morte do livro. Ocorre que "a grande qualidade do futuro é ser perpetuamente surpreendente", lembra Carrière. O futuro não procede do conhecido, mas do desconhecido. Não é uma repetição, mas uma revelação. Matar o livro por antecedência, como um assassino que acredita que basta planejar uma morte para que ela aconteça, é, em consequência, inútil. Inútil e estúpido.

O próprio passado não é bem o que pensamos. Imaginamos, por exemplo, que o século XIX foi muito mais lento que o nosso. Um dia, visitando a biblioteca de José Mindlin, em São Paulo, Jean-Claude Carrière teve a chance de ver uma edição de "Os Miseráveis", de Victor Hugo, publicada e impressa no Rio, em português, em 1862. Isto é, no mesmo ano em que o livro foi publicado em Paris, só dois meses depois! O ensaísta descobriu, então, que, enquanto Hugo escrevia, Hetzel, seu editor, despachava o livro, capítulo após capítulo, aos editores estrangeiros. A rapidez de sua primeira tradução brasileira ultrapassa a velocidade dos atuais best-sellers. "Às vezes é útil relativizar nossas pretensas proezas técnicas", Carrière sugere.

Muito de nosso mundo virtual foi, de certa forma sutil, antecipado pelos clássicos. Carrière cita o exemplo da "Eneida", em que Virgílio, no famoso "Livro VI", já descia não só ao inferno, mas a algo que se assemelhava ao mundo virtual. "Todos os personagens com que você se depara nesse mundo foram alguém ou têm a possibilidade de ser alguém um dia", ele rememora. "Como se Virgílio tivesse tido a intuição das tecnologias de que nos vangloriamos." Se for assim, nada mais fizemos do que cumprir suas profecias. O computador, quem sabe, começou com Virgílio!

No mundo de hoje, mais do que as supostas ameaças ao livro, o que mais impressiona Carrière é "a completa extinção do presente". De um lado, vivemos obcecados pelo futuro - que é sempre incerto. De outro, "o passado nos alcança a toda velocidade". Entre o futuro e o passado, o presente se estreita, se comprime, é quase nada. Mais do que a possibilidade do fim do livro, Carrière se assombra com o fim do presente. Pergunta: "Onde enfiaram o presente? O maravilhoso momento que estamos vivendo e que diversos conspiradores tentam nos roubar?"

O grande problema trazido pela web, entendem os dois amigos, é uma inundação de detalhes e de caminhos, que nos afogam, sem que tenhamos como filtrá-los. Cada página da web nos lança em um desfiladeiro. Cada vez mais, precisamos decidir o que ler - precisamos escolher. Nesse aspecto, o livro ganha ainda mais importância. Em um mundo acelerado e atulhado, impõe-se a necessidade de uma "edição do presente". Carrière compara a web ao panteão dos deuses hindus, com suas 36 mil divindades principais. Para se movimentar nessa teia de deuses, e embora compartilhem as mesmas crenças, cada indiano elege suas divindades prediletas. Diante da tela do computador, precisamos fazer o mesmo. Nesse aspecto, o livro é nosso melhor parceiro.

Bibliófilos apaixonados, Eco e Carrière têm seus sonhos impossíveis. Eco, por exemplo, gostaria de encontrar outro exemplar da "Bíblia" de Gutemberg. Também gostaria de ter em sua biblioteca as tragédias gregas perdidas que Aristóteles cita na "Poética" e que, se descobertas, poderiam colocar em risco, quem sabe, reputações respeitáveis como as de Sófocles e de Eurípides. Já Carrière diz que subiria nas nuvens caso descobrisse um códice maia desconhecido. Ambos se espelham em Paul Pelliot, o explorador e linguista francês que, em 1911, descobriu, em uma caverna, 70 mil manuscritos do século X. Hoje eles formam o acervo Pelliot na Biblioteca Nacional de Paris.

Por que alguns livros sobrevivem e outros não? Quantos grandes autores existiram a respeito dos quais nada sabemos? Muitas vezes, grandes livros estão bem ao nosso lado, mas somos incapazes de vê-los. "Cada leitura modifica o livro, assim como os acontecimentos que atravessamos", Carrière comenta. Semanas antes da conversa com Eco, ele abrira o "Quixote" em sua última parte, a que é menos lida. Nela, Sancho, de volta para casa, diz uma frase espantosa: "Em lugar nenhum encontramos a acolhida almejada por nosso infortúnio". Resume Carrière: "Atualidade de um grande livro: nós o abrimos, ele nos fala de nós". Não precisamos de mais nada.

Flaubert dizia, nos lembram os dois amigos, que a burrice é querer concluir. Umberto Eco sugere: "A burrice é uma forma de administrar a estupidez com orgulho e assiduidade". Afirma Carrière que o imbecil pode chegar por si mesmo a soluções peremptórias e impressionantes. "Ele quer encerrar para sempre uma determinada questão." Esta é a única garantia que o livro nos dá: questões não podem ser encerradas sem se converter em tolices. Os que perguntam se o livro vai morrer buscam uma resposta que encerre a pergunta, que a extermine e liquide. Eles, sim, pretendem matar o livro.

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